7 – OS PROBLEMAS MUNDIAIS E OS MODELOS

POLÍTICOS DOMINANTES

Após termos examinado as correntes de pensamento dominantes nesta segunda metade do século XX, bem como as limitações das suas principais instituições, especialmente seus modelos de organização política, devemos agora examinar a ligação direta destes sistemas políticos com os problemas mundiais, ainda que isto já possa ter sido vislumbrado ao longo das análises apresentadas anteriormente.

Iniciemos, então, explicitando quais os principais problemas mundiais em nossa época, os quais por certo devem estar relacionados, ou mesmo em grande medida devem ter sido gerados por estas correntes e seus modelos, uma vez que elas dominaram o panorama das idéias neste século.

Dizemos “em grande medida” porque a bem da justiça não podemos ignorar que as outras alternativas que se apresentaram ao mundo, especialmente na primeira metade do século, isto é, o Nazismo e o Fascismo, constituem correntes e modelos ainda mais tragicamente equivocados do que os dois examinados e que hoje são hegemônicos. Do mesmo modo, os exemplos alternativos nos dias de hoje, embora de menor significância no contexto mundial, são ainda piores do que os examinados. Nos referimos sobretudo aos fundamentalismos religiosos, a exemplo do caso do Irã. Todos estes também contribuíram ou ainda contribuem para a miséria deste século e, portanto, não podemos atribuir todos os males do século ao Liberalismo e ao Marxismo. Na verdade, é certo que devamos sentir certa gratidão a estas duas correntes, pois foram elas que nos salvaram de uma tragédia muito maior, que seria um domínio mundial nazi-fascista.

Os Principais Problemas Mundiais

Feita esta ressalva, passemos à análise dos principais problemas mundiais que dizem respeito, de um lado, ao abismo de riqueza existente entre as nações, isto é, ao contraste entre os assim chamados países desenvolvidos e subdesenvolvidos, e de outro, às agressões e desequilíbrios do meio ambiente natural, com os desastres ecológicos que podem daí resultar.

O subdesenvolvimento tem por trás de si a miséria, a violência e o abandono de milhões e milhões de seres humanos. Este é um quadro completamente inaceitável, o qual cedo ou tarde gerará uma indignação e uma revolta incontrolável, trazendo consigo o risco inclusive de guerras nucleares. E as crescentes formas de poluição e de destruição impostas ao meio ambiente natural apontam para desastres que já são cientificamente previsíveis em um horizonte não muito distante. Por que as diferenças entre a riqueza das nações aumentou tanto ao longo dos dois últimos séculos? O que é que está por detrás das crescentes agressões ao ambiente natural?

A “Modernização” Como Causa Imediata dos Problemas

A seguinte citação de Alberto Guerreiro Ramos, um dos poucos cientistas sociais brasileiros de renome internacional, aponta na direção de uma resposta para estas questões. Guerreiro Ramos, é importante salientar, teve seus direitos políticos cassados durante o autoritarismo militar e foi também criticado e marginalizado pela esquerda. Ele faleceu na década dos anos 80 (após lecionar na Universidade do Sul da Califórnia). Vejamos a citação:

“Os resultados atuais da modernização, tais como a insegurança psicológica, a degradação da qualidade da vida, a poluição, o desperdício à exaustão dos limitados recursos do planeta, e assim por diante, mal disfarçam o caráter enganador das sociedades contemporâneas. A autodefinição das sociedades industriais avançadas como portadoras da razão está sendo diariamente solapada. Esse clima de perplexidade pode viabilizar uma reformulação teórica de enorme magnitude.” (“A Nova Ciência das Organizações”, p. 22)

Ou seja, estes problemas são os resultados da chamada modernização. E o que está por detrás desta corrida insana entre as nações pela dita modernização? Ora, o próprio significado da palavra “modernização” alude, sobretudo, à capacidade de competir economicamente em termos internacionais. O que está por detrás da verdadeira compulsão pela modernização, portanto, é a desenfreada ou incontrolável competição entre as nações, numa espécie de guerra econômica de todos contra todos no cenário internacional. E por que é tão incontrolável (e, assim, tido como necessário) este processo, cujo único fim previsível são as catástrofes? Por que não existe força capaz de controlá-lo?

Por Que a “Modernização” Torna-se Necessária?

A resposta é simples e diz respeito ao fato de que, como vimos anteriormente, não existe no mundo de hoje força capaz de regular, de controlar ou de harmonizar a atuação das grandes organizações. E elas, por sua vez, não podem deixar de buscar sempre ganhos de produtividade (que significa a capacidade de produzir mais e melhor com a mesma quantidade de recursos, ou até com menos recursos), e outras melhorias deste tipo, isto é, de buscarem a modernização, o que significa uma maior competitividade econômica internacional.

A Competição Entre as Grandes Organizações

As grandes organizações estão obrigadas à dita modernização, ou seja, aos ganhos de produtividade etc., porque elas sabem que se deixarem de agir assim serão destruídas, na medida em que serão derrotadas na competição com as outras gigantescas organizações com as quais disputam. E como também vimos, são elas que têm como fantoches os governos, pelo menos dentro da debilidade e da imoralidade que são absolutamente inerentes ao modelo liberal. Elas arrastam, deste modo, irresistivelmente os países para esta guerra econômica.

Esta guerra tem inclusive forçado a criação de grandes blocos econômicos de países, pois as grandes organizações dos países pequenos e médios necessitam de uma dimensão de mercado que lhes possibilite ganhos de escala, a fim de que sejam capazes de competir de igual para igual com aquelas dos grandes países.

A Fraqueza do Modelo Liberal

Assim sendo, vemos que no mundo se estabelece esta espécie de corrida incontrolável pela modernização. O importante é compreendermos que, dentro do cenário dos atuais modelos de organização política, nada nem ninguém possui a força suficiente para controlar ou impedir este processo. Isto porque, como vimos, estes modelos, quer liberais ou marxistas, não garantem ao mesmo tempo liberdade, oportunidades iguais e adequação entre funções e capacidades, nos processos de seleção dos governantes. E, assim sendo, não promovem uma boa seleção dos governantes.

Isto ocorre sobretudo em relação aos dirigentes do Estado, pois nas grandes empresas a busca pela competitividade impõe que se atenda à regra da adequação entre funções e capacidades, pelo menos em termos técnicos (pois em termos ético-morais a seleção das empresas também é questionável). Isto as torna ainda mais poderosas em relação aos governos estatais, porque seus dirigentes são freqüentemente mais capazes, pelo menos tecnicamente, do que os dirigentes políticos das nações. Um verdadeiro absurdo, porém real.

A esta inerente e inescapável incompetência dos governantes, soma-se no caso do modelo liberal a fraqueza ou debilidade de uma organização social frouxa, fragmentada. Neste modelo, como vimos, os governantes não raro são fantoches que têm suas caríssimas campanhas eleitorais financiadas pelas grandes organizações. Isto, é claro, é um dos principais mecanismos geradores da imensa corrupção que é absolutamente inerente às democracias liberais. E a corrupção em grande escala resulta em uma deformação de todo o processo de desenvolvimento, pois as grandes decisões políticas, econômicas etc., acabam sendo viciadas e desviadas por causa dos interesses privatistas de indivíduos e grupos que as influenciam.

Nas vezes em que isto aparenta não ocorrer, e chega ao governo algum tipo de demagogo-populista, que é a única outra possibilidade dentro de regras políticas tão incompetentes quanto corruptoras, então este governo demagógico-populista, mesmo que pretendesse tomar medidas realmente saneadoras, seria totalmente impotente ante a força avassaladora das grandes corporações (públicas e privadas). A história recente apresenta claros exemplos deste tipo, a começar pelo Brasil, com suas cíclicas rupturas constitucionais e seus golpes militares.

A Incompetência do Modelo Marxista

Os países que adotaram o modelo marxista, a exemplo da ex-União Soviética, também não evitaram o destino de serem tragados pela força desta guerra pela competitividade imposta pelos países mais industrializados organizados de forma democrático-liberal. Esta derrota, no entanto, deve-se menos aos méritos destes últimos, e muito mais ao colapso interno gerado pela rigidez e pela excludência da falta de liberdade, a qual afronta a dignidade e embota a criatividade, somente podendo resultar, portanto, numa insatisfação e numa ineficiência generalizadas.

É importante que se perceba que este processo, que como vimos é incontrolável dentro do quadro dos atuais modelos, é o responsável tanto pelas crescentes agressões ao ambiente natural, quanto pelo quadro de excludência econômica e social do subdesenvolvimento. Examinemos um pouco mais detalhadamente como isto se dá, tomando para análise exemplos concretos.

O Exemplo da Destruição da Floresta Amazônica

Consideremos o caso da crescente destruição da floresta Amazônica, um dos maiores crimes ecológicos contra a natureza e contra a humanidade, e também o caso da miséria em que se encontram, pelo mínimo, cerca de trinta milhões de brasileiros, isto é, examinemos o caso do subdesenvolvimento brasileiro. Estes exemplos, é claro, por analogia servirão para explicar o caso de outras graves agressões ecológicas, bem como a miséria, até mesmo bem maior que a do Brasil, que avilta tantas outras nações.

Quais os agentes imediatos da destruição da floresta Amazônica? Uma combinação da miséria de muitos imigrantes que afluem para aquela região em busca de empregos ou de um pedaço de terra que lhes permita sobreviver, com a busca pela riqueza por parte de indivíduos e empresas que se deslocam para aquelas terras para explorar a madeira, criar gado, plantar, explorar minérios, e assim por diante. O motivo de muitos é a sobrevivência, que estava ameaçada pela miséria e falta de empregos em suas regiões de origem, e de outros são as oportunidades de lucros maiores do que obteriam em suas regiões de origem. Estes são os agentes diretos da exploração mal planejada, que resulta na destruição talvez irreparável de espécies animais e vegetais, que compõem aquele ambiente natural cuja riqueza e importância ecológica não têm par no planeta.

E por que este processo destrutivo tão grave não é impedido em seus aspectos criminosos? Por que não é ordenado e controlado de forma científica e planejada quanto à exploração possível e devida da floresta, dentro de um critério de desenvolvimento sustentável? Obviamente, por causa da incompetência e da impotência dos governantes, cuja causa, conforme já mostramos antes, é a incompetência e a desonestidade inerente ao processo eleitoral de escolha dos governantes, acrescida da organização frouxa (e, portanto, que não gera suficiente força política ou de coerção), que caracterizam as principais instituições do sistema político liberal.

Se poderia argumentar que tivemos longos períodos intercalados de autoritarismo militar. Mas o que prova isto? Apenas, de um lado, reforça o argumento exposto da enorme fraqueza e da incompetência do modelo liberal, e de outro, que os comandantes militares em questão, certamente também influenciados pelas idéias dominantes, não honraram suas corporações, suas missões, nem seus juramentos de proteger e zelar pelos interesses maiores da nação. De qualquer modo, as ditaduras militares não são modelos que dominem o pensamento das elites, nem sequer das elites militares, e quando inevitavelmente ocorrem, sobretudo nos países pobres, ocorrem muito mais pela incompetência e crise das instituições liberais (ou mesmo marxistas), e não por se constituírem modelos acabados e duradouros. Prova disto é que acabam sempre refluindo para os modelos dominantes. Os quais novamente se mostram incompetentes, geram crises etc., e dão espaço para novos golpes ditatoriais.

O exemplo concreto em questão, da destruição da floresta Amazônica, portanto, está clara e diretamente ligado à incompetência e à fraqueza dos governantes, que é característica central das democracias liberais. E que dizer então da miséria, da corrupção e da violência que caracterizam o subdesenvolvimento brasileiro? A sua perpetuação, isto é, a incapacidade da nação superar este quadro trágico, ano após ano, década após década, também está, é claro, diretamente ligada à incompetência e à debilidade dos governantes gerada pelo modelo liberal, conforme vimos anteriormente ao analisarmos os efeitos desvirtuadores e nocivos da influência das grandes organizações sobre o processo de desenvolvimento. No caso brasileiro fica patente a relação deste quadro com o modelo liberal, até mesmo porque neste país ainda não tivemos a aplicação de um modelo marxista de organização.

As Origens do Subdesenvolvimento

Mas, a questão de como se gerou inicialmente esta miséria exige uma análise mais ampla, sobretudo porque há países que aplicam o modelo liberal e que são ricos, e onde a miséria absoluta foi praticamente abolida, ou existe em uma dimensão muitíssimo menor do que nos países pobres. E, assim sendo, estes países são freqüentemente apresentados como modelos a serem copiados. Em outras palavras, a questão que se impõe aos subdesenvolvidos, e que poucos parecem compreender claramente é: se este modelo deu certo lá, por que não consegue dar certo aqui?

Ou seja, por que estes países ricos venceram no passado e continuam vencendo no presente a corrida pela modernização, isto é, pela produtividade e pela qualidade de suas economias, e não raro até mesmo aumentando a vantagem relativa que os separa dos países pobres?

A resposta para a questão do início destas grandes diferenças de riquezas entre os países está, evidentemente, ligada ao período de exploração colonialista. Com o advento das grandes navegações e, sobretudo, com o advento da revolução industrial alguns países passaram a exercer pela força um domínio econômico e de outros tipos sobre outros países ou regiões do planeta. Estas nações estabeleceram “colônias”, as quais serviram tanto como fontes de matérias primas baratas, quanto como mercados consumidores cativos para a crescente industrialização das metrópoles.

Aqui no Brasil, por exemplo, havia leis durante o período colonial que proibiam o estabelecimento de qualquer tipo de indústria, coisa que só mudou a partir do momento em que a família real, expulsa de Portugal pelos exércitos de Napoleão, veio estabelecer-se por algum tempo no Brasil. A razão da existência destas leis visava, é claro, garantir que o Brasil permanecesse apenas como um mercado consumidor de produtos manufaturados pela metrópole, ou pelo menos comercializados através dela.

A Industrialização e a Geração do Valor Agregado

Por que isto é tão importante? Precisamos perceber claramente que, a menos que um país possua excepcionais riquezas naturais (por exemplo, os países que possuem muito petróleo em seu território, ou uma população pequena em relação a uma dimensão territorial muito grande), não existe outra maneira de alcançar-se o patamar de riqueza atingido pelas nações mais ricas do planeta senão através de um intensivo processo de industrialização. Isto porque, a cada vez que uma matéria prima passa por um processo de transformação industrial de qualquer tipo, é agregado a ela um valor adicional que inclui o ganho com o lucro obtido neste processo de transformação. Em economia dá-se o nome de “valor agregado” a esse diferencial obtido em cada momento do processo produtivo. A industrialização permite, portanto, a geração de uma estrutura econômica muito mais complexa, com mais etapas de transformação no processo produtivo, sendo que a cada uma destas etapas mais valor é adicionado.

Esta maior complexificação industrial gera vários efeitos positivos quanto à geração de maiores riquezas. Por exemplo, gera uma taxa de ocupação maior da força de trabalho; gera uma complementação interindustrial que permite processos produtivos com um número cada vez maior de etapas de transformação; gera a necessidade da complementação de uma gama muito ampla de serviços de todo o tipo; e esta complementação entre os setores da agricultura e da exploração de outras matérias primas, da indústria e dos serviços e comércio gera ganhos de produtividade impressionantes, sobretudo, através da crescente mecanização dos processos produtivos de todo tipo.

Tudo isto aconteceu primeiro em algumas nações e graças, principalmente, às vantagens obtidas sobre as outras, a ferro e a fogo, através da dominação colonialista. Quando este processo já estava bastante avançado, então o discurso dominante passou a ser diferente, e chegamos, após duas grandes guerras mundiais (que, no fundo, foram guerras entre nações ricas pela disputa de espaços coloniais ou neocoloniais), a este período de globalização econômica caracterizado pela “livre” competição internacional.

A Relativa e Conveniente Liberdade Econômica

Esta ampla e “livre” globalização econômica, ou seja, esta guerra com as armas da “modernização” (produtividade etc.) se caracteriza por alguns aspectos ilusivos e muito perversos. Primeiro, a dita “liberdade” vale apenas para alguns fatores econômicos, isto é, vale de um modo geral para os produtos primários, produtos industrializados, inclusive máquinas, e para os serviços. Mas, não vale para o fator trabalho. Este fator econômico não goza da liberdade de deslocar-se à vontade. Isto, evidentemente, visa garantir que as vantagens obtidas por alguns, não sejam ameaçadas por movimentos migratórios em busca de melhores salários, oportunidades de emprego etc. A liberdade da “modernização”, portanto, é mais interessantemente “moderna” para alguns do que para outros.

Em segundo lugar, esta liberdade seletiva (que existe apenas para determinados fatores econômicos) inerente à globalização e à modernização, é um processo do tipo “raposa dentro do galinheiro”. Vejamos se não é bem o caso. Como vimos, trata-se de uma luta por produtividade etc., entre competidores que não partiram em condições de igualdade, uma vez que não podemos ignorar o período anterior a este, de séculos de exploração colonialista. Hoje, portanto, a competição se estabelece entre forças muito desiguais e num jogo de guerra como este, no qual o que pode mais sofre menos, esta liberdade seletiva apenas tende a manter as diferenças iniciais, e muitas vezes até mesmo a acentuá-las, o que caracteriza claramente um processo no qual os mais fracos não têm chance alguma de vitória. Vemos, portanto, que esta liberdade é como a liberdade da raposa dentro do galinheiro, muito interessante apenas para um dos lados.

A Finitude dos Recursos Naturais

Até mesmo do ponto de vista meramente relacionado ao consumo das principais matérias primas é possível perceber que os mais pobres jamais poderão alcançar, dentro das atuais regras do jogo, o padrão de riqueza alcançado pelos mais ricos. Apenas para citar um exemplo conhecido, examinemos uma projeção para a população mundial do nível de consumo per capita de petróleo, que ainda hoje é um gerador de energia indispensável.

Se levarmos em conta o consumo médio per capita dos EUA, do Canadá, ou mesmo da Alemanha e do Japão, que são exemplos de países ricos, que aconteceria? Esta questão não é nem um pouco absurda, uma vez que se imaginamos que os países pobres devem imitar o exemplo dos países ricos, então estes também desenvolverão um padrão de consumo e uma matriz energética bastante parecidos. Neste caso, aconteceria que todas as reservas conhecidas de petróleo seriam consumidas em pouco mais de seis anos, segundo os dados da “British Petroleum” (“BP – Statistical Review of World Energy”, 06/85 e 06/87).

Examinemos um pouco estes dados. As reservas mundiais de petróleo seriam de 95.200 milhões de TEP’s (toneladas equivalentes de petróleo). A população dos EUA é de cerca de 250 milhões e seu consumo em 1986 foi de cerca de 750 milhões de TEP’s. Enquanto sua população é vinte vezes menor do que a população mundial, seu consumo de petróleo é apenas quatro vezes menor que o consumo mundial, que em 1986 era de cerca de 3.000 milhões de TEP’s. Portanto, se projetamos seu consumo per capita (750 dividido por 250 = 3), pela população mundial que é de 5.000 milhões (cinco bilhões) de pessoas, teremos um consumo mundial cinco vezes maior, ou seja, de 15.000 milhões de TEP’s. Ora, dividindo as reservas mundiais pelo que seria o consumo mundial (95.200 por 15.000 = 6,3) vemos que em pouco mais de seis anos teríamos esgotado as reservas mundiais.

Assim sendo, mesmo que estes dados possam ser discutidos, e que as reservas a serem descobertas dobrassem, isto nos daria um horizonte de apenas doze anos, o que não mudaria muito o panorama que queremos demonstrar. Ou seja, que obviamente não é possível que todos os países pobres reproduzam o padrão de desenvolvimento e riqueza dos países ricos. Isto é uma impossibilidade material, pura e simplesmente. Deste modo, mesmo por este ângulo, podemos ver que a liberdade e a modernização que “deu certo” para os países ricos não tem a menor chance de dar igualmente “certo” para os países pobres nos quais, é sempre bom lembrar, vivem duas terças partes da população mundial. A maioria, no entanto, parece não ter conhecimento destes duros fatos da realidade mundial.

“Dar Certo” Por Meio da Exploração

Portanto, estes países que são exemplos de lugares onde o modelo liberal “deu certo”, estabeleceram uma prosperidade que só se tornou possível às custas da miséria de grande parte da população mundial, e continuam “dando certo” às custas de formas neocolonialistas de exploração, que lhes garantem uma vitória na guerra ou, como dissemos, na “corrida maluca” da modernização, que garante a manutenção deste estado de coisas tão injusto.

Muitas pessoas, em vista destas condições gerais, afirmam que o Brasil é um país que ainda pode “dar certo” ou um país de futuro. Isto porque devido aos seus recursos naturais, às suas dimensões territoriais etc., o Brasil poderia ser uma espécie de último vagão no trem dos países que se beneficiam da exploração dos demais. Mesmo que isto fosse verdade, deveríamos chamar a isto de “dar certo”? Isto é, estabelecermos um belo nível de vida às custas da miséria da Bolívia, do Paraguai etc.? Podemos chamar a isto “dar certo” se quisermos, mas não podemos deixar de reconhecer que do ponto de vista do bem-estar da humanidade como um todo, este é um modelo fracassado, que implica na impossibilidade de uma solução global para o problema do subdesenvolvimento e, portanto, implica em uma imoralidade imensa.

Estando claro, deste modo, como se deu a origem do enorme diferencial de riqueza entre as nações, e como este quadro de exclusão e injustiça se perpetua, podemos agora perceber que, especialmente no que diz respeito às possibilidades de superação da miséria dos países pobres (dentro de um cenário como este, cuja realidade apenas os inocentes ou os espertos podem ignorar, ou pretender ignorar) fica ainda mais evidente o fracasso do modelo liberal.

Um modelo de organização sócio-política como o liberal que, como vimos, se caracteriza por um péssimo processo de escolha dos governantes e pela fraqueza e pequena capacidade de coerção (ou força política) destes dirigentes, significa na melhor das hipóteses a manutenção do atual estado de coisas. Em vista disso, não é de surpreender que os países ricos o considerem tão interessante.

A Necessidade de Um Novo Modelo Político

Os países pobres, no entanto, têm como sua única esperança o advento de novas instituições, sobretudo de um novo modelo político que garanta a seleção de governantes moralmente confiáveis e tecnicamente competentes, bem como que garanta a estes governantes uma grande capacidade de coerção, a fim de que possam controlar, disciplinar e harmonizar em prol do bem-estar coletivo o poder das gigantescas organizações, capacidade esta que só poder advir de forma natural e benigna através de uma boa organização de toda a população.

 

8 – A DEMOCRACIA DO FUTURO


Requisitos Para Um Modelo Alternativo Competente

Tendo deixado claro o fracasso dos modelos dominantes e porque eles não poderão assegurar jamais, especialmente em relação aos países pobres do mundo, uma ordem social justa e competente, que possa significar a superação do quadro de exclusão e miséria de tantos milhões que assistimos em nossos dias, chegamos agora ao momento em que devemos apontar pelo menos algumas diretrizes gerais a respeito de como seria um modelo político alternativo, que tivesse pelo menos a chance de alterar substancialmente este panorama.

Já vimos anteriormente que a premissa, isto é, a visão de humanidade por detrás deste modelo deve ser aquela que nos mostra a humanidade como uma fraternidade, o que implica no reconhecimento da unidade essencial dos seres humanos, bem como das suas grandes diferenças de capacidades. Quais, então, seriam as características principais de um novo modelo de organização política, que atendesse às necessidades antes expostas para um processo justo e competente de seleção dos governantes, bem como à necessidade de dotar estes governantes do suficiente poder de coerção?

Como vimos anteriormente, os requisitos essenciais que devem existir simultaneamente para um competente processo de escolha dos dirigentes são: 1) liberdade; 2) igualdade de oportunidades ou de condições nas disputas políticas; e 3) uma boa adequação entre a responsabilidade ou o grau de dificuldade das funções e as características da consciência social (ou dos níveis de capacidade) da população. Já no que diz respeito à geração do necessário poder de coerção pelo sistema, de modo que os governantes possam disciplinar a atuação das grandes organizações, o requisito necessário é que o modelo político promova uma organização coesa de toda a população.

Em vista, sobretudo, das características dos diferentes níveis de consciência da população e da simultânea necessidade de que a liberdade de escolha seja preservada, bem como garantida uma igualdade de oportunidades na disputa política, a primeira conclusão é a da total inviabilidade de eleições diretas envolvendo grandes populações.

Representação em Cascata: a Democracia do Futuro

À primeira vista nos encontramos em um beco sem saída. Mas, na realidade, um pouco mais de reflexão nos mostra que há uma solução consistente para este aparente paradoxo. Trata-se de um modelo que contemple eleições muito menos diretas, e que garanta que estas eleições nunca impliquem em processos de escolha envolvendo diretamente grandes massas, muito embora preservando a liberdade e uma rigorosa proporcionalidade entre as várias pequenas circunscrições eleitorais.

Deste modo, este sistema teria como base circunscrições eleitorais bastante pequenas, a exemplo de vilas, vizinhanças, pequenos bairros ou municipalidades bem pequenas, de preferência jamais ultrapassando uma dimensão bastante humana, na qual o conhecimento pessoal entre os indivíduos não fosse uma coisa impossível ou mesmo extremamente difícil. A que número de pessoas estaríamos aproximadamente nos referindo? Este número poder variar significativamente em se tratando de áreas rurais ou urbanas, uma vez que nas áreas urbanas de grande concentração populacional as distâncias físicas entre um número expressivo de pessoas são bastante pequenas, com grandes edifícios etc., e nestas condições de comunicação interpessoal muito mais facilitada, o número da população desta primeira circunscrição político-eleitoral poderia ser significativamente maior do que em áreas de grande dispersão populacional, onde as pessoas tenham dificuldades muito maiores de estabelecerem contatos face a face.

Estas diferenças de número de pessoas neste primeiro nível eleitoral não têm importância alguma, uma vez que sempre se manterá uma rigorosa proporcionalidade entre representantes e representados. Se, apenas por hipótese, o coeficiente for de 50 para 1 neste primeiro nível, então, se numa circunscrição houver 1.000 eleitores, haveria 20 representantes do primeiro nível. Se outra circunscrição básica contar com apenas 200 eleitores, ela elegerá apenas quatro representantes do primeiro nível, e assim por diante. A rigorosa proporcionalidade sendo um óbvio requisito para a igualdade de oportunidades.

O modelo de representações sucessivas se estreitaria gradualmente como uma pirâmide, através do nível dos Distritos, das Micro-regiões, dos Estados (ou Províncias), e daí para o Congresso Nacional, o qual escolheria um gabinete com um chefe executivo, tal como um primeiro-ministro em um sistema parlamentarista. Convém notar, no entanto, que este sistema assemelha-se ao sistema parlamentarista convencional apenas no topo da pirâmide, sendo todo o processo de escolha e seleção completamente diferente dos sufrágios de massa até chegar ao nível do Congresso Nacional.

Se levarmos em conta as enormes vantagens deste sistema em relação aos atuais torna-se quase inacreditável que um sistema assim não tenha sido experimentado seriamente em nenhum lugar, ao menos que tenhamos conhecimento. Examinemos um pouco estas vantagens, em comparação com os atuais sistemas dominantes: a democracia liberal e o totalitarismo marxista.

A Liberdade é Garantida

Em relação ao totalitarismo marxista a sua grande vantagem é que a liberdade é absolutamente preservada neste sistema, enquanto que nas chamadas ditaduras do proletariado a liberdade é sacrificada. Neste contexto, é claro, só existe igualdade de oportunidades para os membros do partido, se tanto. Ou seja, não existe igualdade de oportunidades no totalitarismo marxista, enquanto que neste sistema proposto ela existe, e é quase tão grande quanto é possível humanamente imaginar-se.

Quanto aos outros aspectos esta democracia do futuro, conforme nos referimos no título, não perde em nada para o totalitarismo marxista, o qual tem na adequação entre funções e capacidades e na organização coesa de toda a população os seus pontos fortes. Ora, estes pontos são igualmente fortes nessa democracia do futuro, uma vez que ela é muito parecida nestes particulares aspectos, sendo, na realidade, ainda superior ao totalitarismo marxista, pois este exclui do processo de escolha muitas pessoas inteligentes e capazes, apenas porque elas não pertencem ao partido comunista, ou assemelhados.

Um Processo com Igualdade de Oportunidades

Que dizer então da comparação com o sistema hoje hegemônico no mundo que é a democracia liberal? A liberdade que é o ponto forte das democracias liberais também é plenamente preservada nesta democracia do futuro. Sob alguns aspectos, de fato, há até mesmo mais liberdade nesta do que nas democracias liberais, porque nestas últimas por vezes o voto é obrigatório, enquanto na primeira é livre; nas últimas geralmente os candidatos devem estar filiados a algum partido, na primeira os candidatos podem ou não, dependendo de suas livres escolhas, estarem filiados a algum partido; nas últimas para ser candidato quase sempre a pessoa depende da escolha dos partidos, mas nesta democracia do futuro a decisão depende apenas de sua livre escolha. Vemos, assim, que mesmo sob este aspecto que é o forte das democracias liberais, este novo modelo de democracia não lhe fica devendo nada, e talvez até mesmo tenha algumas vantagens.

Quanto a todos os outros aspectos esta democracia do futuro é muito superior às democracias liberais. Ela garante uma imensa igualdade de oportunidades nos processos eleitorais, enquanto que nas democracias liberais apenas os privilegiados materialmente, os comunicadores de massa e os demagogos é que têm chance de serem eleitos para os cargos de maior responsabilidade.

A Harmonia entre Funções e Capacidades

Quanto à adequação entre funções e capacidades quase não há necessidade de comentários, tamanhas são as vantagens do modelo sugerido em relação aos sufrágios de massa das democracias liberais. Nesta democracia do futuro há uma gradual qualificação dos eleitores, que foram os eleitos no nível imediatamente inferior. É quase ridícula a comparação, mas qual seria o percentual dos que elegeriam os representantes para o Congresso Nacional neste novo modelo que não saberiam sequer dizer o que é uma Assembléia Constituinte? Certamente este percentual seria zero, ou seja, nenhum dos representantes deste nível desconheceria uma questão tão elementar! Comparemos isto com os 70,5 % que no Rio Grande do Sul não sabiam responder a esta questão tão elementar, mas que constituíram o próprio eleitorado que escolheu os constituintes em 1986! Haveria necessidade de outras comparações? Haveria alguma dúvida de que nesta democracia do futuro teríamos um Congresso Nacional extraordinariamente mais qualificado?

A Geração do Poder Necessário

Finalmente, também quanto à capacidade de gerar o suficiente poder de coerção nas mãos dos dirigentes o modelo aqui defendido é muitíssimo superior às democracias liberais. No modelo proposto a população está toda ela muito bem organizada, não de forma frouxa e atomizada como nas democracias liberais. É quase impossível reprimir-se violentamente um sistema como este. Se, por hipótese, uma força militar impedisse o funcionamento do Congresso Nacional, ainda assim todo o resto da população continuaria politicamente organizada, em uma cascata de pequenas assembléias, na maioria dos casos tão pequenas que poderiam se reunir em uma ampla sala de estar. Como reprimir uma organização assim? É algo quase impossível.

           Tudo isto sem mencionar o fato evidente de que talvez a maior força política nesta democracia do futuro seja a grande e incomparavelmente maior qualificação (em relação à democracia liberal) dos seus dirigentes mais elevados, o que lhes garantiria, apenas por este aspecto, enorme apoio popular. Que diferença dos exemplos recentes da política brasileira, onde vemos casos e mais casos de corrupção, de incompetência, e assim por diante.

Necessita-se de Um Exemplo para as Nações

O país que conseguir em primeiro lugar adotar o modelo de organização política desta democracia do futuro, na qual existe, de fato, uma real chance para que a necessária sabedoria chegue até os cargos de maior poder e responsabilidade, estará, deste modo, servindo aos mais elevados interesses do seu próprio povo, e estará também dando um exemplo que certamente ajudará e inspirará outros povos.

Em vista das análises anteriores, parece desnecessário compararmos ainda mais este modelo com os atualmente dominantes no mundo inteiro. Ele parece sob todos os aspectos muito mais eficaz do que os atuais, tanto em termos de competência do processo de escolha dos dirigentes, quanto em termos de gerar um poder de coerção muito maior nas mãos dos dirigentes, de modo que eles possam disciplinar a atuação das gigantescas organizações de caráter privatista, pois este novo modelo organiza de forma muito mais coesa toda a população de qualquer sociedade.

Tanto a diferença na qualificação dos governantes, quanto na coesão organizacional, mudariam substancialmente o quadro caótico e perpetuador de injustiças de todo o tipo que hoje temos. E isto é de importância difícil de exagerar, sobretudo para as nações pobres, que hoje não têm esperança alguma, dentro dos atuais modelos, quer liberais, quer marxistas, de superarem o círculo vicioso da miséria e do subdesenvolvimento.

O Humanitarismo como Instrumento de Transformação

À luz da compreensão de todos os aspectos que foram expostos – acerca da realidade ideacional do mundo e, conseqüentemente, da realidade político-econômica dela derivada – podemos agora perceber claramente o imenso valor teórico e prático dos princípios fundamentais do Humanitarismo.

A Sociedade Humanitarista é uma organização que tem como objetivo difundir estes princípios e se constitui em um exemplo prático de aplicação dos princípios do Humanitarismo. Deste modo, ela oferece um exemplo concreto do modelo de estrutura organizacional que pode tornar possível as soluções para os grandes problemas do mundo. Este aspecto de oferecer um exemplo concreto é absolutamente necessário ao Humanitarismo enquanto movimento de transformação social, até mesmo porque predicar sem viver aquilo que se professa não é mais do que uma farsa.

           Tão somente a constituição de uma organização com estas características é que, de um lado, assegura para a Sociedade Humanitarista o direito moral de pregar as soluções para os grandes problemas do mundo e, de outro, pode algum dia gerar a força necessária para a realização desta gigantesca tarefa, em face dos tremendos obstáculos e antagonismos de toda ordem a serem enfrentados. Por estas razões parece oportuno concluirmos este texto com um capítulo a respeito do Humanitarismo e do projeto da Sociedade Humanitarista.

 

9 – A SOCIEDADE HUMANITARISTA E A IMPORTÂNCIA DA COOPERAÇÃO

“De cada um segundo suas capacidades, 
a cada um segundo suas necessidades.”

A Responsabilidade da Cooperação

Em vista da seriedade e da brutalidade da atual situação mundial, muito especialmente a situação dos países pobres (ditos subdesenvolvidos), é muito evidente a responsabilidade de toda e qualquer pessoa capaz de alguma ação inegoísta no sentido de fazer aquilo que estiver ao seu alcance, por pouco que seja, visando cooperar com atividades que promovam melhoramentos eficazes das condições miseráveis nas quais padecem tantos e tantos seres humanos.

O Humanitarismo, enquanto doutrina sócio-política, afirma de forma categórica a existência de capacidades suficientes dentro da família humana para superar esta atual situação de miséria e desespero. A própria palavra – humanitarismo – procura aludir a esta presença de forças beneficentes em quantidade suficiente dentro da humanidade. Ela é uma afirmação vigorosa a respeito da existência destas forças benignas dentro da humanidade. Mas não é uma afirmação ingênua ou romântica, que desconhece o fato de que a maioria dos seres humanos ainda é preponderantemente egoísta. Já enquanto um movimento, o Humanitarismo é uma tentativa prática de demonstrar a viabilidade da superação da situação atual, bem como de auxiliar substancialmente nesta tarefa.

Embora afirme que a responsabilidade pela situação atual seja dividida por todos os seres humanos, o Humanitarismo também afirma o fato de que esta responsabilidade não toca a todos com igual peso (em vista da diversidade de capacidades entre os indivíduos). Ela é muito maior no caso das pessoas que se encontram em condições mais favoráveis e no caso das pessoas que possuem maior capacidade de compreensão. Estas pessoas de maior capacitação somente encontrarão paz e felicidade em suas vidas na medida em que responderem apropriadamente a esta responsabilidade.

A Necessidade da Cooperação

Neste sentido, há um fato decisivo que deve ser ponderado e refletido com muito vagar. Este fato é a necessidade de uma ação cooperativa entre muitas e muitas pessoas, todas trabalhando em prol deste objetivo de superação das reais causas geradoras da situação atual. Como mostramos, o domínio das gigantescas organizações é uma característica central do mundo de nossos dias, para o bem e para o mal. E somente a união ou a cooperação inteligente de um número maior ainda de pessoas é que poderá, algum dia, fazer frente ao poder, hoje sem rival, das grandes organizações.

É necessário que se compreenda que organizações que se dediquem a problemas específicos jamais serão suficientes. Na verdade, ao fragmentarem as forças que deveriam necessariamente estar unidas, estas organizações tornam-se parte do problema que elas mesmas procuram resolver. Isto porque elas dividem e assim enfraquecem os recursos e as energias escassas, os quais apenas estando unidos podem gerar o poder suficiente para uma transformação realmente eficaz.

O Efeito Nocivo das Organizações Parciais

Os vários problemas específicos a que estas organizações fragmentárias se dedicam somente poderão ter solução efetiva quando um grande número de pessoas reconhecerem a necessidade de uma solução global e, portanto, se reúnam em uma organização que englobe e contemple como um todo a solução destes vários problemas específicos (a exemplo das causas da superação da miséria e da fome, da igual dignidade das mulheres, dos direitos dos povos indígenas e de todas as minorias étnicas e de outros tipos, da conservação do ambiente natural, da proteção aos animais etc.).

Do contrário, ao promoverem a fragmentação, estas organizações isoladas alimentam a própria causa dos males que elas procuram combater. Transformam-se em causas combatendo os seus próprios efeitos, numa espécie de círculo vicioso que não poderá jamais alcançar os objetivos visados. Isto porque, conforme apontamos, a falta de uma força ou poder que possa fazer frente às grandes organizações é uma das causas principais de todos os males específicos da situação mundial atual.

A Necessidade de Um Exemplo Prático

Além desta necessidade de que seja formada uma grande organização de caráter global, existe também a necessidade de que esta organização exemplifique praticamente uma solução para a outra causa principal dos problemas atuais que, como vimos, é a inexistência de um bom processo de seleção dos dirigentes. Uma organização forte mas mal dirigida também se converterá em uma causa a combater os seus próprios efeitos. Estes dois aspectos em conjunto são condições necessárias para a superação do quadro atual.

A Sociedade Humanitarista foi criada para ser uma organização com estas características. De um lado, é uma organização de caráter global e, de outro, ela corporifica na prática um competente e justo processo de escolha de seus dirigentes. Ela visa oferecer, portanto, não um mero paliativo, mas uma solução real, que combata as verdadeiras causas dos vários problemas específicos.

A Sociedade Humanitarista nasceu para ser uma organização internacional, embora seu primeiro ramo tenha surgido no Brasil (a SHB – Sociedade Humanitarista no Brasil). A SHB foi fundada em 20 de julho de 1986, na cidade de Porto Alegre, como uma sociedade civil sem fins lucrativos. Tem seu Estatuto registrado nesta mesma capital, o qual, como dissemos, exemplifica concretamente o novo processo de seleção dos dirigentes que o Humanitarismo propõe.

Difusão de Novos Valores e Idéias

Suas linhas básicas de atuação desenvolvem-se ao redor de três eixos ou colunas principais. O primeiro é o da Cultura, entendida no sentido da criação de oportunidades para o desenvolvimento das capacidades humanas, tanto em termos técnicos, quanto (e principalmente) em termos da transmissão de valores éticos derivados dos princípios do Humanitarismo. Esta primeira linha implicará em reuniões, livros, cursos, palestras etc. Estes deverão ser adaptados aos diferentes níveis de capacitação pessoal, sem comprometimento das verdades fundamentais expostas pelo Humanitarismo, do mesmo modo que o ensino das quatro operações não compromete a verdade da álgebra ou do cálculo superior.

A Política Como Instrumento de Transformação

O segundo eixo é o da Organização Política no sentido restrito da formação de um movimento político humanitarista, o qual poderá implicar inclusive na futura formação de um partido político. Nos primeiros tempos este movimento servirá mais para divulgar amplamente as idéias do Humanitarismo, do que como uma alternativa real de transformação social. Mesmo assim sua importância não é pequena, pois há poucos instrumentos mais eficazes para a difusão de idéias do que um partido político.

A Economia Como Instrumento de Transformação

O terceiro eixo é o das Atividades Econômicas Visando (a prática efetiva do) Auxílio Mútuo. Concretamente, objetiva-se a criação de vários empreendimentos e organizações econômicas, todas pertencentes ou ligadas à Sociedade Humanitarista. Estas empresas deverão por em prática nas relações de trabalho os princípios do Humanitarismo, criando oportunidades para que muitos possam ganhar a vida retamente, ao mesmo tempo em que auxiliam a promoção de uma causa da maior importância. Estas atividades serão geradoras de bem-estar tanto para os trabalhadores diretos, quanto para todos os associados que terão acesso a muitos bens e serviços a preços muito reduzidos, através de descontos etc.

Serão empreendimentos tais como editoras, escolas, muitos serviços, e mesmo indústrias e produção agrícola, que serão criados à medida que a Sociedade Humanitarista for se desenvolvendo. Estas empresas poderão tanto gerar recursos para a promoção dos ideais humanitaristas, quanto aproximar e viabilizar a cooperação de muitas pessoas que de outro modo dificilmente se aproximariam da Sociedade Humanitarista. Estes empreendimentos não deverão produzir ou explorar serviços e produtos supérfluos, obedecendo ao princípio ético de que o luxo transforma-se em algo indevido quando muitos não dispõem sequer do essencial na vida.

Unidade na Diversidade

O lema da Sociedade Humanitarista é UNIDADE NA DIVERSIDADE. Seu símbolo é uma figura humana com os braços abertos, simbolizando a irmandade de todos os seres humanos. As cores da Sociedade Humanitarista são o branco, o azul, o verde e o vermelho. O branco simbolizando a unidade, a integração de todas as cores. E as cores azul, verde e vermelho (que são as cores primárias do espectro-luz) simbolizando a diversidade. Das combinações destas três surgem todas as outras cores, como no exemplo de uma televisão a cores.

A União Faz a Força

A Sociedade Humanitarista, conforme indicam seus símbolos e suas atividades propostas, tem como objetivo concreto integrar cooperativa e harmoniosamente um grande número de pessoas. Estas isoladamente, ou divididas em pequenas organizações, muito pouco poderiam fazer de realmente transformador neste mundo, regido por gigantescas organizações de cunho privatista, isto é, que visam lucros privados, interesses grupais, corporativos, sectários, regionais, nacionais etc.

A Sociedade Humanitarista afirma e visa demonstrar praticamente que os seres humanos são capazes de cooperar harmoniosamente, desde que organizados inteligentemente, ou seja, sobre os fundamentos de princípios simples e verdadeiros. Não há nada de novo neste propósito. As antigas tradições religiosas já nos transmitiram esta orientação e este ensinamento, a exemplo da seguinte passagem dos antiqüíssimos Vedas:

“Pequenos esforços engenhosamente combinados

Tornam-se extraordinariamente poderosos.

Elefantes furiosos são amarrados

Por um cordão de fibras de grama entrelaçadas.”

 
Os Princípios Fundamentais

Como uma doutrina ou filosofia sócio-política o Humanitarismo está fundamentado em apenas quatro grandes e simples princípios, cuja importância os capítulos anteriores procuraram demonstrar. Estes princípios foram apresentados na Introdução, mas cabe repeti-los:

1– Todos os seres humanos constituem uma FRATERNIDADE.

2– Todos os seres humanos possuem uma mesma origem e uma mesma natureza essencial e, portanto, IGUAL VALOR.

3– Não obstante a sua unidade e igualdade essenciais, os seres humanos apresentam CAPACIDADES DIFERENCIADAS.

4– Em vista destes princípios, a norma que deve presidir a justiça e a harmonia possível entre os seres humanos é a da IGUALDADE DE OPORTUNIDADES para o desenvolvimento de suas capacidades individuais diferenciadas.


Uma Deliberada Simplicidade Doutrinária

As pessoas que se associam à Sociedade Humanitarista declaram sua adesão tão somente a estes princípios, intencionalmente simples, uma vez que esta organização visa demonstrar, na prática, a possibilidade de uma cooperação e de uma convivência harmoniosa entre pessoas muito diferentes, tanto em termos culturais, religiosos etc., quanto em termos de capacidades individuais, desde que elas possam concordar quanto a alguns poucos princípios amplos e universais.

A simplicidade destes princípios fundamentais, deste modo, visa não colocar obstáculos desnecessários ao relacionamento harmonioso ou à cooperação frutífera entre indivíduos pertencentes às várias tradições culturais e de diferentes níveis de compreensão.

Além deste objetivo de não criar obstáculos indevidos à aproximação de pessoas de diferentes tradições e capacidades, há outras razões muito importantes porque o Humanitarismo como uma doutrina busca evitar, tanto quanto isto for possível, uma desnecessária complexidade. Estas razões estão relacionadas com os perigos do intelectualismo. Isto é, com o perigo de se atribuir uma importância exagerada às atividades meramente intelectuais.

Os Perigos do Intelectualismo

O intelectualismo é outro dos terríveis equívocos ou falsidades que dominam o mundo de nossos dias. Ele também brota muito naturalmente das visões de ser humano hoje dominantes, na medida em que elas não reconhecem claramente o fato e a decisiva importância da existência, pelo menos em uma minoria, de capacidades supra-intelectuais (de poder de conhecimento intuitivo, ou seja, de uma verdadeira capacidade de realização interior da Unidade por detrás de toda a diversidade), que são inerentes ao nível de desenvolvimento alcançado pelo menos por aqueles seres humanos de maior nível de capacidades.

O mundo de hoje, em conseqüência disso, valoriza e premia exageradamente o intelectualismo. Não percebendo que o conhecimento meramente intelectual, embora tendo o seu lugar e a sua importância (que não devem ser de modo algum desprezados), também apresenta severas limitações.

O conhecimento meramente intelectual baseia-se na memória e na comparação. Ele está aprisionado, portanto, dentro do campo da dualidade e da separatividade e, deste modo, tende a negar a existência da Unidade, bem como a menosprezar ou mesmo a ignorar a existência da sabedoria, do altruísmo e da virtude genuína entre os seres humanos (ainda que estes preponderem de forma marcante apenas numa pequena minoria). Isto, por sua vez, resulta inevitavelmente em valores éticos e em concepções de deveres bastante equivocadas. Sem o claro reconhecimento da Unidade e da simultânea extraordinária diversidade de capacidades entre os seres humanos, como procuramos demonstrar antes, não existe a menor chance de soluções eficazes para os grandes problemas humanos duais, a exemplo da dualidade entre liberdade e despotismo (autoritarismo ou exacerbação da autoridade).

Apenas por estas razões o intelectualismo deve ser reconhecido como um grave problema e como uma das grandes tragédias derivadas das falsas concepções de ser humano hoje dominantes no mundo. Como escreveu Francis Bacon, a ciência é um instrumento que pode auxiliar muito aos seres humanos e que precisa ser desenvolvida, mas ela não pode orientar, por exemplo, nem sequer o seu próprio desenvolvimento. Isto porque este desenvolvimento depende de uma clara e justa avaliação de prioridades, a fim de que se possa discernir em quais as áreas devem ser concentrados os recursos sempre relativamente escassos à disposição dos projetos de pesquisa científica.

A Necessidade da Verdadeira Sabedoria

Esta orientação do desenvolvimento da própria ciência, portanto, depende de uma verdadeira sabedoria a qual, por sua vez, está necessariamente ligada a valores éticos. E estes valores éticos não dependem de qualquer processo meramente mecânico ou quantitativo, mas sim do que Bacon chamava de “uma outra ciência”, estes valores dependem de processos de natureza interior ou intuitiva (do latim “in-tueri”, isto é, olhar (“tueri”), sobre ou para dentro (in)) ou, se quisermos usar as palavras do próprio Francis Bacon, dependem da “contemplação e da meditação”.

Esta verdadeira sabedoria que é capaz, por exemplo, de discernir com segurança as prioridades, não pode existir sem noções éticas, e estas por sua vez só podem ter como fundamento seguro e real a fusão entre conhecimento e virtude, isto é, o genuíno altruísmo etc. Esta fusão implica numa transcendência da dualidade e da separatividade, que são características essenciais do conhecimento meramente intelectual. Isto porque o conhecimento intelectual está baseado na comparação, na memória, no dualismo – razão pela qual os filósofos gregos o chamaram de “di-alética”, ou seja, processo de conhecimento que implica em separar a alma em duas partes, pois toda a comparação implica em duas partes.

Estes limites do conhecimento intelectual tornam-se claramente perceptíveis ao observarmos o fato de que todo conhecimento intelectual é como um instrumento, o qual pode ser usado tanto para construir quanto para destruir, tanto para curar quanto para ferir, tanto para o bem quanto o para o mal. A sabedoria necessita vitalmente, deste modo, da superação desta dualidade, isto é, necessita da realização da Unidade. E também por esta razão a afirmação filosófica da Unidade é um conceito essencial do Humanitarismo.

Para muitos estas questões acima serão excessivamente abstratas, o que é perfeitamente normal. Mas quase todos podem perceber que os estudos e as discussões meramente intelectuais tendem a se encerrar em “torres de marfim”, produzindo uma sofisticação lingüística cada vez mais complexa, nas quais se estabelece com extraordinária facilidade uma desproporcional ou excessiva importância às atividades e disputas intelectuais, quase como se fossem um fim em si mesmas.

O resultado disto, ainda que inconsciente, como é tão fácil de constatar em alguns casos, é um descolamento, uma alienação, um perder de vista da relação com os problemas mais urgentes e que mais atormentam o mundo. É bem ilustrativo o fato de que os homens conseguiram resolver tantos problemas muito sofisticados, como aqueles das viagens espaciais, da bomba atômica, do desenvolvimento de velocíssimos computadores etc., mas não conseguiram sucesso em questões nada complexas, mas muito mais urgentes, como a simples alimentação ou a moradia para todos os seres humanos. Se isto não é uma demonstração do enorme intelectualismo de nossa época, então o que poderá ser?

Este segundo aspecto da opção por uma relativa simplicidade doutrinária, portanto, prende-se ao fato de que há graves e urgentes problemas, dos quais a nossa atenção não pode ser desviada. Este desvio implica na quase certeza de uma perda do senso de prioridades, de quais são os problemas que devemos resolver em primeiro lugar. Há a necessidade de alguma elaboração intelectual ou doutrinária, é claro. Como há a necessidade de mapas. Mas são tão graves os problemas que desafiam a humanidade de nossos dias, tão vastas as suas conseqüências, que faz-se necessária uma especial ênfase na solução efetiva de problemas simples porém absolutamente prioritários. E para facilitar uma ação cultural, política e social radicalmente diferente, isto é, comprometida com a solução consistente dos mais urgentes problemas humanos é que o Humanitarismo optou por uma voluntária simplicidade doutrinária, que diminua os riscos do intelectualismo – de se atribuir exagerada importância à sofisticação intelectual e ao mero acúmulo de conhecimentos.

Uma Rara Oportunidade de Cooperação

Aquelas pessoas que compreenderem a importância dos princípios do Humanitarismo para o bem-estar de toda a humanidade, e sobretudo para o bem-estar dos países e das populações mais pobres deste mundo, não poderão deixar de sentir a seriedade do apelo aqui feito sobre a importância de darem a sua cooperação, dentro de suas próprias capacidades, grandes ou pequenas, ao trabalho da organização ímpar no mundo que é a Sociedade Humanitarista.

As pessoas que concordarem com o que aqui foi transmitido, que graças a esta visão passarem a entender melhor a vida social, política e econômica de seus países e do planeta e, portanto, passarem a entenderem melhor a sua própria vida e o seu próprio lugar dentro da realidade social, não continuarão a apoiar posturas, discursos e organizações medíocres e geradoras de mais miséria no mundo. Estas pessoas não poderão deixar passar a oportunidade raríssima de auxiliar nos momentos iniciais e mais difíceis da trajetória do Humanitarismo e da Sociedade Humanitarista. Elas refletirão sobre a pobreza de uma vida que não encontrou um movimento com o qual cooperar que vá até as causas, que não fique nas conseqüências, nos efeitos dos problemas mundiais. E com imensa alegria elas compreenderão e responderão de forma positiva e prática à importância desta cooperação.

Desde logo manifestamos o nosso sincero respeito aos que não puderem concordar com as visões que aqui foram expostas. Também que solicitamos que, se isto for possível, nos apresentem suas críticas e sugestões, pelo que ficaríamos muito agradecidos.

 

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